Por Luiz Gonzaga
Belluzzo – Da Revista CartaCapital
Mais do que um
economista, Keynes era um publicista, um homem que pretendia falar em nome do
interesse público e que acreditava no poder de persuasão das ideias. Para
Maynard – assim o chamavam os discípulos de Cambridge –, o estudo da economia –
uma ciência moral – só valia a pena como um meio para a realização dos valores
que a sociedade moderna promete, mas não entrega aos cidadãos.
Publicado em 1930
na revista Nation and Atheneum e republicado em 1931 nos Essays in
Persuasion, o artigo As Possibilidades Econômicas de Nossos Netos pretendia
superar o pessimismo que afligia os tempos da Grande Depressão. Tempos
açoitados pela derrocada econômica, pelo desespero social e pela turbação
política.
No seu estilo
peculiar, avesso aos cacoetes da linguagem usual dos economistas, Keynes
desenha as possibilidades econômicas dos próximos cem anos. Na visão do
autor, impulsionado pelo avanço tecnológico e pela rápida acumulação produtiva,
o capitalismo criou as condições para a superação das limitações impostas
milenarmente à satisfação das necessidades básicas. Essa vitória sobre a
escassez acenou com a fruição de uma vida boa, moral e culturalmente
enriquecedora para homens e mulheres. Mas, em sua maníaca obsessão pela
acumulação monetária, o capitalismo cria tantos problemas quanto os que
consegue resolver. A admirável “criatividade” produtiva e tecnológica não consegue
realizar a promessa da vida boa. Os poderes que o convocam à produção da
abundância são os mesmos que submetem as criaturas humanas ao vício do
consumismo, à permanente insatisfação das necessidades ilimitadas e aos
grilhões do impulso insaciável da acumulação de riqueza monetária.
Nesse texto
perturbador para o ethos da sociedade aprisionada nas engrenagens da
concorrência, Keynes escreve: “Devemos abandonar os falsos princípios morais
que nos conduziram nos últimos dois séculos. Eles colocaram as características
humanas mais desagradáveis na posição das mais elevadas virtudes. Não há nenhum
país, nenhum povo que possa vislumbrar a era do tempo livre e da abundância sem
um calafrio… Pois fomos educados para o esforço aquisitivo e não para fruir… Se
avaliarmos o comportamento e as realizações das classes abastadas de hoje, as
perspectivas são deprimentes… Os que dispõem de rendimentos diferenciados, mas
não têm deveres ou laços, falharam, em sua maioria, de forma desastrosa
no encaminhamento dos problemas que lhes foram apresentados”.
Entre minhas
modestas tentativas de desvendar os valores que orientaram os trabalhos do
maior economista do século- XX, sublinhei o peculiar conservadorismo de Keynes.
Ele professava a crença de que a sociedade e o indivíduo são produtos da
tradição e da história. Cultivava os valores de uma moral comunitária,
radicalmente antivitoriana e, portanto, visceralmente antiutilitarista. Isso
não quer dizer que recusasse as virtudes criativas da modernidade capitalista
nascido sob consigna do avanço das liberdades e da autonomia do
indivíduo. O “amor ao dinheiro”, dizia, é o sentimento que move o
indivíduo na economia mercantil-capitalista. Fator de progresso e de
mudança social, “the love of money” pode se transformar em um tormento para o
homem moderno. A sanha competitiva não avalia os custos da refrega, “mas olha
apenas para seus resultados finais, assumidos como permanentes”.
No seu célebre
artigo O Fim do Laissez-faire, Maynard ironizou a ideia de que a
busca do interesse privado levaria necessariamente ao bem-estar coletivo. “Não
é uma dedução correta dos princípios da teoria econômica afirmar que o egoísmo
esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o autointeresse
é, em geral, esclarecido.”
Os efeitos
negativos do darwinismo social devem ser neutralizados mediante a ação jurídica
e política do Estado e, sobretudo, pela atuação de “corpos coletivos
intermediários”; como, por exemplo, um Banco Central dedicado à gestão
consciente da moeda e do crédito. Keynes acreditava que a cura para os males do
capitalismo deve “ser buscada, em parte, pelo controle da moeda e do crédito
por uma instituição central e, em parte, por um acompanhamento da situação dos
negócios, subsidiados por abundante produção de dados e informações”. Ele
insistia na “da direção inteligente pela sociedade dos mecanismos profundos que
movem os negócios privados”, particularmente as decisões sobre a posse da
riqueza marcadas pelo conflito entre o investimento criador de riqueza nova –
leia-se emprego, rendimentos e lucros para trabalhadores e empresários – e a
acumulação de valores fictícios, estéreis para a comunidade.
No último capítulo
de sua obra maior intitulada Notas Finais sobre a Filosofia Social, A Que
Pode Levar a Teoria Geral, Keynes constrói a síntese entre a sua filosofia
moral e a crítica à “teoria clássica” empreendida ao longo do livro. Ele propõe
um conjunto de políticas apoiadas nas concepções já sugeridas no artigo de
1933, The Means to Prosperity: “O problema econômico é uma questão de
economia política, isto é, da combinação entre teoria econômica e a arte da
gestão estatal”.
O primeiro ponto
desse arranjo de política econômica é a “socialização do investimento”,
entendida como a coordenação pelo Estado das relações entre o investimento
público e privado. O “orçamento de capital” do governo deve ser administrado de
modo a minorar as incertezas que contaminam o investimento privado. “Creio que
uma socialização bastante completa do investimento será o único meio de se aproximar
do pleno emprego, ainda que isso não exclua qualquer forma de cooperação entre
a autoridade pública e a iniciativa privada.”
O segundo pilar da
proposta keynesiana cuida da eutanásia do rentier. A política bancária e
de crédito deve ser administrada para neutralizar “o poder de opressão
acumulativo do capitalista para explorar o valor de escassez do capital…
enquanto sejam intrínsecas as razões para a escassez da terra, isso não é
verdade para a escassez de capital”.
O terceiro ponto
reclama um sistema fiscal que mantenha permanentemente a capacidade de
redistribuir renda dos mais abonados para as classes menos favorecidas, com o
objetivo de manter o consumo crescendo à mesma velocidade da expansão da renda.
O quarto ponto. Já
na Teoria Geral, Keynes clamava por uma distribuição mais equitativa do
ajustamento dos desequilíbrios de balanço de pagamento entre deficitários e
superavitários, como forma de evitar os desatinos competitivos de “empobrecer o
vizinho”. Isso significava facilitar o crédito aos países deficitários e
penalizar os países superavitários. O propósito era evitar os “ajustamentos
deflacionários” e manter as economias na trajetória do pleno emprego. Mais
tarde, em Bretton Woods, Keynes propôs à Clearing Union, uma espécie de
Banco Central dos bancos centrais. A Clearing Union emitiria uma
moeda bancária, o bancor, destinada exclusivamente a liquidar posições
entre os bancos centrais. Ele imaginava que o controle de capitais deveria ser
“uma característica permanente da nova ordem econômica mundial”.
É fácil perceber a
atualidade dessas recomendações de política econômica. Mas é quase impossível
vislumbrar sua aplicação no mundo controlado pelas ideias do poder –
econômico, financeiro e midiático – e não, como pretendia Keynes, pelo poder
das ideias.
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