terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Cultos econômicos impenetráveis – por Paul Krugman


2 de janeiro de 2012 | 18h30 – Estadão.com.br (Economia & Negócios)


Paul Krugman


Brad DeLong aponta para repetidas citações de economistas de Chicago afirmando que todo o economista que propuser o estímulo fiscal – Christy, Larry, eu – é necessariamente corrupto. E ainda há pessoas que perdem a calma por causa dos meus insultos contra elas!

A força que impulsiona estes comentários – ao menos numa primeira instância – é a crença dos economistas de Chicago segundo a qual “ninguém” defendeu que a política fiscal pode ser expansionista desde a revolução das expectativas racionais dos anos 70 – algo bastante falso. Na verdade, o que ocorreu nos anos 70 foi o seguinte: os economistas de Chicago pararam de ler autores que não compartilhassem totalmente de suas próprias crenças, o que significou que eles perderam a retomada do modelo econômico keynesiano (isso mesmo, um estudo de Greg Mankiw), e tudo o mais que veio na esteira desta retomada.

No meu caso, quando o possível papel desempenhado pela política fiscal começou a ser mencionado, meus pensamentos se voltaram imediatamente para Obstfeld-Rogoff. Este tipo de coisa – que teve muita influência na macroeconomia internacional – tinha como base um modelo de plena equivalência ricardiana. Independentemente disto, aumentos temporários nas compras do governo causavam aumentos temporários na demanda agregada.

Não pretendo defender que esta seja a única maneira inteligente de se pensar tais questões; o bom e velho modelo IS/LM é na verdade uma ferramenta de análise surpreendentemente poderosa. Mas o modelo O-R era bastante completo, e mostrava que, ainda assim, a política fiscal poderia afetar a demanda. Nenhum economista que tenha lido Obstfeld-Rogoff – ou que tenha uma vaga noção da obra desta dupla e de tantos outros pensadores trabalhando no domínio do novo keynesianismo – poderia ter feito comentários iguais aos de Fama, Cochrane e Lucas.

Assim sendo, toda esta controvérsia demonstra apenas o grau de insularidade em que vivem os economistas de Chicago; a escola deles se converteu num culto impenetrável, fechado a todas as informações vindas de fontes pagãs.

Ora, é claro que, depois de terem tentado fazer valer seus conceitos mesmo diante de pessoas que estavam muito à sua frente – até em termos da elaboração de caprichados modelos econômicos -, eles se veem agora numa posição que os obriga a serem ainda mais impenetráveis para salvar o respeito próprio.

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