5 de janeiro de 2012
Escuro, meio sombrio, sem fogos e até um pouco sem graça, foram os
relatos do meu irmão sobre a virada do ano em Paris, cidade que todo turista
espera encontrar luz. A verdade é que, para os europeus, não há o que
comemorar. 2011 foi pior que o ano anterior e as coisas não parecem animadoras
para 2012, tendo em vista que é quase certo que a Zona do Euro mergulhe em uma
nova recessão.
Saiu hoje um documento com as previsões de
crescimento da Economist Intelligence Unit para este ano. Como se vê
no gráfico logo abaixo, as economias europeias são destaque entre os países em
que é esperada alguma contração. (O Sudão lidera a lista dos lanterninhas
porque, segundo o relatório, o país perdeu três quartos das suas reservas de
petróleo para o Sudão do Sul na separação em julho.)
Previsões da
European Economic Forecast sobre o nível da dívida-2011 em relação
ao PIB projetam um aumento do razão da dívida-PIB em 2011-12 para quase todos
os países da zona euro. Uma inversão da evolução da dívida-PIB com base em
cortes no déficit é improvável no curto prazo, porque é extremamente custosa e
nem eficaz (estimativas da OCDE indicam que a austeridade, caso implementada,
levará a uma nova recessão, que por sua vez pode levar a uma maior razão
dívida-PIB do que antes).
Passado o ano, fica mais fácil fazer o balanço e ver com mais precisão o
que ocorreu de errado. A crise é complicada, porque combina crise financeira
com questões de governança sob difíceis condições macroeconômicas. A verdade é
que os economistas não convergiram em um diagnóstico comum, que sem dúvida
contribui para muitos ruídos entre os formuladores de políticas. Por exemplo,
porque a crise permanece tão arraigada na Zona do Euro? Argumentos em torno da
ausência de disciplina fiscal e o risco moral são os mais consensuais. Mas existe
uma boa dose de erros de política, justamente porque não havia e nem há um
diagnótico preciso sobre a crise, o que favoreceu o surgimento de teses
enganosas.
O professor de economia Charles Wyplosz, CEPR Research Fellow de Gênova,
diz, por exemplo, que culpar a especulação do mercado ou as avaliações de risco
das agências de rating ou se preocupar com os riscos inflacionários são erros
comuns. Austeridade elevada e redução “voluntária” da dívida também não vai
resolver nem no curto nem no longo prazo. Um artigo do economista traça
uma guisa de algumas preocupações que o ano passado nos deixou:
“A visão surpreendente de
políticos aparentemente dominados pelos problemas que eles enfrentam é, sem
dúvida, o aspecto mais preocupante da crise. Há pouca dúvida de que as crises
financeiras são eventos complexos. Elas exigem uma compreensão dos mercados
financeiros e de equilíbrios múltiplos. Ninguém espera que os políticos,
espontaneamente, dominem este tipo de conhecimento, mas esperamos que eles são
devidamente informados e que suas propostas são cuidadosamente avaliados antes
de serem apresentadas. Infelizmente, este não foi o caso, e a questão é por
quê.”
Como forma de pôr fim à crise, o economista enumera condições
fundamentais a serem satisfeitas. Primeiro, os governos que perderam o acesso
ao mercado devem ser socorridos. Segundo, esse resgate deve ser feito pelo
Banco Central Europeu (BCE), porque as quantias necessárias são a perder de
vista. Aqui, o professor explica que:
“O valor total da dívida pública da Zona Euro é de cerca de €9 trilhões.
O Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF) pode mobilizar, no máximo,
€200 bilhões, e o FMI pode colocar uma quantidade similar. “Amigos” como a China
não vão acrescentar muito. Só o BCE pode mobilizar qualquer quantia de dinheiro
que se tornar necessária.”
Terceiro, a recapitalização dos bancos deve ser feita, se possível antes
que o default aconteça. Por fim, pensar no risco moral exige o firme e rápido
estabelecimento da disciplina fiscal na zona do euro. O professor Charles é
cético ao dizer que a trajetória traçada até agora é pouco provável que leve a
algum lugar. Como alternativa para um novo acordo ele sugere a “Disciplina
Fiscal Board” (através da criação de um órgão independente para examinar o
quadro de política fiscal de cada país membro) e regras de garantia impostas
pelo BCE, que ajudariam, mas sem dúvida não são implementadas do dia pra noite.

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