Por
João Sicsú - Professor
do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi diretor
de Políticas e Estudos Macroeconômicos do IPEA entre 2007 e 2011)
Publicado
em 13/12/2011 – Carta Capital
De Harvard para as ruas
Dia 2 de novembro. O dia dos mortos. No curso introdutório de economia
(rotulado “economia 10”) da Universidade de Harvard, os alunos ressuscitaram.
Entregaram uma carta ao renomado professor Gregory Mankiw informando que
estavam se retirando da sua sala de aula em protesto contra o conteúdo do curso
que o economista está lecionando. Escreveram:
“Hoje, estamos saindo de sua
aula, Economia 10, a fim de expressar o nosso descontentamento com o viés dado
a este curso de introdução à economia. Estamos profundamente preocupados com a
maneira que esse viés afeta os estudantes, a Universidade e a sociedade, em
geral.”
Valeria ter noticiado este evento no Brasil? Sim, vale a pena! Greg
Mankiw é bastante conhecido e muito admirado pelos economistas conservadores
brasileiros. Tem livros traduzidos para o português e vastamente adotados nos
cursos de graduação de economia do Brasil. E muitos de seus artigos acadêmicos
são utilizados nos cursos de mestrado e doutorado. Ademais, de 2003 a
2005, foi presidente do Conselho de Consultores Econômicos do presidente George
W. Bush. Hoje, é assessor do pré-candidato republicano Mitt Romney à Casa
Branca em 2012.
Mankiw se considera um economista novo-keynesiano. Mas, para o leitor
que tem a sorte de não conhecer os mínimos detalhes (que beiram a loucura) da
vida acadêmica de economia, tal rótulo não quer dizer que Mankiw seja um
seguidor do inglês John Maynard Keynes. Pasmem: quer dizer exatamente o oposto.
De volta à carta. Em seguida o texto dos estudantes explicita o viés
mencionado: “não há justificativa para a apresentação de teorias econômicas
de Adam Smith como sendo mais essenciais ou básicas do que, por exemplo, a
teoria keynesiana”.
Leia também:
Mundo em crise,
esquerda em crise, jovens nas ruas. E daí?
Hipocrisia
contra o mercado financeiro
Segundo os estudantes, o curso teria a tendência de valorizar a teoria
da “mão invisível” do mercado, a ideia fundamental do pensamento smithiano, em
detrimento das visões que valorizariam o papel do Estado, a concepção
keynesiana, como promotor do equilíbrio e do bem estar. Aparentemente, os
alunos têm razão, cursos de introdução à economia devem apresentar uma visão
ampla da teoria, mostrando que existem diversas possibilidades de leitura da
realidade econômica. Embora jovens, os alunos sabem as consequências de cursos
tendenciosos:
“Graduados de Harvard jogam um papel importante nas instituições
financeiras e na definição de políticas públicas em todo o mundo. Se Harvard
não equipar seus alunos com uma compreensão ampla e crítica da economia, é
provável que suas ações prejudiquem o sistema financeiro global. A prova disso
são os últimos cinco anos de turbulência econômica.”
Melhor ainda: os alunos não se retiraram da sala de aula para lanchar no
McDonald´s. Foram para as ruas.
“Estamos saindo hoje para nos juntar a uma ampla marcha em Boston para
protestar contra a mercantilização do ensino superior que é parte do movimento
global ‘Occupy’. Já que a natureza viesada do curso Economia 10 simboliza e
contribui para a crescente desigualdade econômica nos Estados Unidos, nós
estamos saindo da aula de hoje tanto para protestar contra a sua discussão
inadequada da teoria econômica básica, como para emprestar o nosso apoio a um
movimento que está mudando o discurso americano sobre injustiça econômica.”
Mankiw, depois de um mês do ocorrido, se pronunciou em sua coluna do New
York Times de 3 dezembro. No artigo, argumenta, como esperado, em defesa do seu
curso e da sua trajetória profissional. Não vale a pena comentar. Apenas, vale
mencionar dois fragmentos de seu texto. E a conclusão fica para o leitor…
“A administração da universidade, que tinha ouvido falar sobre o
planejamento do protesto, enviou vários policiais, como medida de precaução,
para sentar na minha classe no dia [da manifestação]. Felizmente, eles não
foram necessários.”
“… minha (…) reação foi de tristeza ao perceber como mal informados
parecem estar os manifestantes de Harvard. Tal como acontece com grande parte
do movimento ‘Occupy’ por todo o país, suas queixas me parecem ser um apanhado
de platitudes anti-establishment sem uma análise realística ou claras
prescrições de política.”
Para acessar a carta dos estudantes de Harvard:
Para acessar a resposta de Gregory Mankiw:
http://www.nytimes.com/2011/12/04/business/know-what-youre-protesting-economic-view.html
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