23/02/2012
A Comissão Europeia confirmou
aquilo que todos suspeitavam: as economias estudadas pela organização estão
encolhendo, e não crescendo como dizem algumas pessoas. Ainda não se trata de
uma recessão oficial, mas a única dúvida diz repeito à gravidade desse desaquecimento
econômico.
E essa crise está atingindo nações
que jamais se recuperaram da última recessão. Apesar de todos os problemas dos
Estados Unidos, o produto interno bruto norte-americano finalmente superou o
seu pico anterior à crise. Já na Europa isso não ocorreu. E o sofrimento
enfrentado por algumas nações europeias tem uma intensidade digna da Grande
Depressão: a Grécia e a Irlanda registraram quedas de produção de dois dígitos,
a Espanha está com um índice de desemprego de 23% e a crise no Reino Unido já
dura mais do que aquela da década de trinta.
Mas o pior é que os líderes
europeus – e muitos indivíduos influentes aqui nos Estados Unidos – ainda estão
apegados à doutrina econômica que foi a responsável pelo desastre.
A situação não tinha necessariamente
de ser assim tão ruim. A Grécia enfrentaria problemas graves de qualquer
maneira, independentemente de que decisões políticas fossem tomadas, e o mesmo
aconteceria, em menor grau, com outros países da periferia europeia. Mas a
situação tornou-se muito pior do que seria necessário devido à maneira como os
líderes europeus, e de forma mais geral a elite política do continente,
substituíram a análise pela moralização e as lições da história por fantasias.
Especificamente, no início de
2010, a austeridade econômica – a insistência em que os governos têm de cortar
gastos mesmo diante de um alto índice de desemprego – tornou-se o mantra das
capitais europeias. A doutrina afirma que os efeitos negativos diretos dos
cortes de gastos sobre os empregos seriam compensados por mudanças no “nível de
confiança”, que reduções rigorosas de investimentos gerariam uma onda de gastos
por parte de consumidores e empresas, enquanto que as nações que não tomassem
tais medidas amargariam fuga de capital e taxas de juros elevadas. Tem razão
quem acha que tal receita poderia ter sido prescrita por Herbert Hoover. Foi
exatamente o que ele fez.
Agora os resultados estão aí. E
eles foram exatamente aquilo que análises econômicas feitas durante três
gerações e todas as lições históricas indicaram que ocorreria. O aumento da
confiança não passava de uma falsa história: nenhum dos países que cortaram
gastos experimentaram o aquecimento previsto do setor privado. Em vez disso os
efeitos deprimentes da austeridades fiscal foram reforçados pela redução dos
investimentos privados.
Além do mais, os mercados de
títulos continuam se recusando a cooperar. Até mesmo os pupilos mais notáveis
da austeridade, países que, como Portugal ou Irlanda, fizeram tudo o que foi
exigido deles, ainda ainda se deparam com custos imensos para empréstimos. Por
que? Porque a redução dos gastos deprimiu profundamente a economia dessas
nações, solapando as suas bases fiscais a tal ponto que a proporção entre
dívida e produto interno bruto, o indicador padrão do progresso fiscal, está
ficando cada vez pior.
Enquanto isso, países que não
embarcaram no trem da austeridade – dos quais os mais notáveis são Japão e
Estados Unidos – continuam apresentando custos de empréstimos muito baixos,
desafiando as previsões sombrias dos conservadores fiscais.
Mas nem tudo deu errado. No final
do ano passado os custos de empréstimos espanhol e italiano dispararam,
ameaçando provocar uma catástrofe financeira generalizada. Atualmente esses
custos caíram, para o alívio geral. Mas essa boa notícia foi na verdade um
triunfo para o campo contrário à austeridade: Mario Draghi, o novo presidente
do Banco Central Europeu, desprezou os economistas que disseminam o medo da
inflação e colocou em prática uma grande expansão do crédito, o que foi exatamente
o que havia sido prescrito.
Sendo assim, o que será necessário
para convencer a Congregação do Sofrimento, aquele grupo de pessoas dos dois
lados do Atlântico que insistem em dizer que nós podemos prosperar por meio dos
cortes de gastos, de que ela está equivocada?
Afinal, os suspeitos usuais não
perderam tempo em decretar a morte da ideia de estímulo fiscal depois que os
esforços do presidente Barack Obama não produziram uma queda rápida do
desemprego – ainda que muitos economistas tivessem advertido que o pacote de
estímulos do presidente era muito pequeno. No entanto, até onde eu posso dizer,
a austeridade ainda está sendo considerada como medida responsável e
necessária, apesar de ela ter, na prática, fracassado catastroficamente.
O fato é que nós poderíamos fazer
muito para ajudar as nossas economias simplesmente revertendo a austeridade
destrutiva que foi aplicada nos últimos dois anos. Isso se aplica até mesmo aos
Estados Unidos, que evitaram medidas de austeridade drástica no nível federal,
mas onde houve grandes cortes de gastos e empregos nos níveis estadual e
municipal. Vocês se lembram de toda a agitação no sentido de determinar se
havia suficientes projetos de construção para tornar viável um projeto de
estímulo de grande escala? Bem, não se preocupem.
Tudo o que o governo federal
precisa fazer para dar um grande impulso à economia é fornecer ajuda a governos
da alçada estadual e municipal, possibilitando que esses governos voltem a
contratar as centenas de milhares de professores que foram demitidos e que eles
reiniciem os projetos de construção e manutenção que cancelaram.
Eu entendo que pessoas influentes
estejam relutando em admitir que as ideias tidas como profunda sabedoria não
passavam na verdade de uma loucura destrutiva. Mas é hora de colocar de lado
todas essas crenças ilusórias nas supostas virtudes da austeridade em uma
economia deprimida.
Tradução: UOL
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