Estadão.com.br - 09 de fevereiro de 2012
Você acha que o sistema financeiro funcionaria (e melhor) sem um banco
central? Se não acha, saiba que você é visto como um potencial defensor do
autoritarismo. Quem o enxerga dessa forma é Ron Paul, pré-candidato à
Presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano.
"A
quinta das dez medidas propostas por Marx no Manifesto Comunista é clara:
‘Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com
capital de Estado’. Isso não quer dizer que qualquer pessoa que defenda um
banco central poderoso seja comunista. Mas mostra que um banco central é
extremamente benéfico para aqueles que preferem um governo autoritário",
afirma Paul em seu livro "O fim do Fed".
O
grupo de pessoas que defende a extinção dos bancos centrais cresceu nos EUA
depois da crise financeira de 2008 e faz eco no Brasil. Em São Paulo, a
Fecomercio-SP abrigou na semana passada um debate cujo tema era "Por que
acabar com o banco central". Na mesa, a estrela era o economista americano
Steven Horwitz, professor na St. Lawrence University.
Ele
acredita que "um sistema [financeiro] competitivo sem um banco central
produziria a quantidade correta de dinheiro, da mesma forma como os mercados
são melhores do que um planejamento central para produzir a quantidade correta
de alimentos".
Segundo
o professor, os bancos seriam mais cautelosos se não existisse uma entidade
capaz de "criar dinheiro do nada" para salvá-los. Assim, não se
formariam as grandes bolhas, na opinião dele.
Ideia 'cool'
A
proposta de acabar com o BC encontra respaldo naqueles que querem protestar
contra o socorro aos bancos mas não se identificam com esquerdistas. Esse
radicalismo ganha espaço principalmente entre jovens. "Pode ser ‘cool’
dizer: ‘Ei, cara, eu acredito no fim do Federal Reserve’", brinca Horwitz.
No
Brasil, o Instituto Mises, entidade que editou o livro de Paul no País e
organizou o debate na Fecomercio-SP, importou a tese. "Monopólio do
dinheiro não é capitalismo", disse no evento o presidente da instituição,
Hélio Beltrão Filho, referindo-se ao fato de que só o BC pode criar moeda.
"A
grande causa da crise é o monopólio do crédito. [...] A saída não é
regulamentar ainda mais. A sociedade acredita que pode dormir enquanto os
reguladores trabalham, mas o caso MF Global mostra que isso está errado, porque
aconteceu debaixo das barbas dos reguladores", afirmou. A MF Global é uma
corretora que quebrou após acusações de que extraviava dinheiro de clientes.
O
economista Paulo Rabello de Castro, presidente do Conselho Superior de Economia
da Fecomercio, aproveitou a ocasião para criticar o BC brasileiro. "Aqui
no Brasil a gente paga juros para nada". E continuou: "No Brasil,
monopolizam-se muitas coisas, não só a emissão de dinheiro".
Defesa do BC
Na
mesa do debate, havia apenas uma voz dissonante, a do economista Francisco
Coelho, presidente do Conselho Superior da Ordem dos Economistas do Brasil.
"O título do debate [‘Por que acabar com o Banco Central’] está
errado", afirmou. E ainda provocou: "Adoraria ver os bancos centrais
entrevistando os executivos de instituições financeiras, porque a qualidade [desses
profissionais] está muito ruim".
Para
ele, existe um problema de má governança nos bancos, que precisa ser
supervisionado pelo BC. Além disso, no mercado algumas pessoas têm mais
acesso do que outras a dados que influenciam o preço de um ativo. É a chamada
"assimetria de informação", outro elemento que causa desequilíbrios e
torna necessária a existência de um regulador.
Regulação
As
pessoas que pregam a eliminação dos bancos centrais fazem contraponto às que
defendem mais regulação do sistema financeiro. O grupo anti-BC acredita que foi
o excesso de regulação que gerou a crise. Já o outro lado, dos keynesianos,
culpa o processo de desregulamentação, ocorrido nos anos 1980.
O
que houve, de fato, foi um afrouxamento na regulação, porém sem a eliminação do
"emprestador de última instância", que é o Fed. Com isso, os bancos
ficaram livres para fazer diversos tipos de operação, mas sabendo que, na hora
do aperto, poderiam contar com a ajuda estatal.
A
combinação de aumento da liberdade dos bancos com manutenção do papel do BC de
emprestador de última instância agradou o setor financeiro na época, mas
contribuiu para a formação de uma bolha imobiliária, o que gerou a crise e
desagradou tanto os keynesianos como os defensores do livre mercado.
De
qualquer forma, a tese de acabar com o Fed esbarra na vida prática. Uma vez que
os BCs já existem, eliminá-los "é uma questão muito difícil", admite
Horwitz.
Nenhum comentário:
Postar um comentário