Análise:
aliança de GM e PSA começa a cumprir 'profecia dos seis grupos'
Por Claudio
Luis de Souza - Do UOL
O anúncio da aliança entre a General Motors e o grupo
PSA Peugeot Citroën, na semana passada, é mais um sinal de que a indústria
automotiva corre contra o tempo para se adaptar a um ambiente econômico e
geopolítico em transformação.
De uma discreta participação acionária de 7% da GM na
Peugeot, e de corriqueiras estratégias conjuntas para economizar US$ 2 bilhões
anualmente em custos diversos, o chefão da PSA, Phillipe Varin, já fala em
compartilhar linhas de montagem (Peugeot usa Opel, Opel usa Peugeot), enquanto
um jornal alemão aponta até a plataforma que seria aproveitada para novos
modelos médios da aliança -- a do Insignia, premiado sedã da Opel.
Fica comprovado o tino de Sergio Marchionne, chefão de
outra aliança, a de Fiat e Chrysler, que vem repetindo acreditar numa indústria
automotiva com até seis grandes grupos industriais, sem "players"
menores -- estes seriam gradualmente absorvidos pelos maiores, ou simplesmente
fechariam as portas.
Cada um
desses megagrupos terá várias marcas, boa parte delas competidoras entre si. No
entanto, cada vez mais os carros serão variações sobre plataformas
compartilhadas. No Brasil, o caso mais conspícuo é o da própria PSA, que mantém
Citroën e Peugeot como rivais, e de Hyundai e Kia, que brigam até na
publicidade. Seus produtos, no entanto, usam os mesmos motores, transmissões e
demais partes. Mudam as cascas e o status, a depender da imagem da marca.
As alianças
GM-PSA e Fiat-Chrysler e o vaticínio de Marchionne dão musculatura a
especulações sobre quais seriam os seis grandes grupos automotivos do futuro.
Hoje, as empresas candidatas a nave-mãe, por ordem de vendas em 2011, são
General Motors, Volkswagen, Renault-Nissan, Toyota, Hyundai-Kia e Ford.
Todas as
demais, inclusive a própria Fiat-Chrysler (sétimo lugar no ranking de 2011),
acabariam -- de um modo ou outro -- recorrendo a estas para sobreviver. A lista
tem nomes fortes como Honda, Suzuki, Mitsubishi, Peugeot, Citroën... A ver.
TEMPO DE
MUDAR
A
reformulação da indústria automotiva parece inevitável quando alguns dos
chamados "mercados maduros", de países desenvolvidos, parecem ter
passado ao próximo estágio -- o apodrecimento. É o que se vê na Europa.
Ao mesmo
tempo, os chamados países emergentes consomem cada vez mais carros. A China é o
maior mercado do mundo, e o Brasil, o quarto, à frente da poderosa Alemanha,
sede de várias fabricantes de peso.
A questão
energética é global, assim como o da poluição. Nesse cenário tenso e de frágil
equilíbrio entre as várias peças dispostas no tabuleiro automotivo (grandes
corporações, governos, investidores, marcas, distribuidores, consumidores
etc.), jogadas que antes poderiam parecer impensáveis (ou impossíveis) são
encetadas.
Por
exemplo, aquela que levou uma tradicional fabricante de carros, talvez a mais
"ianque delas", acostumada a vender "barcas" a um
consumidor fanático por beberrões motores V8, oferecer-se toda a uma italiana
especlalista em carros pequenos, econômicos e com histórico de fracasso nos
EUA. Foi assim com Chrysler e Fiat.
Outro lance
ousado foi confiar o desenvolvimento de produto globais a equipes estrangeiras
à matriz, e depois iniciar a produção deles em mercados robustos, mas fora do
eixo EUA-Europa. Aconteceu com a nova geração da Chevrolet S10, projetada por
brasileiros e lançada na Tailândia, e com o novo Ford EcoSport, outro projeto
brasileiro, este apresentado em janeiro passado na Índia.
O objetivo
último, evidentemente, é adequar-se à nova realidade dos mercados para cortar
custos e, na ponta da operação, aumentar a lucratividade. Além de quem ganha, é
preciso ver quem vai perder nesse processo. A boa notícia é que pode não ser
o Brasil.
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