Por João Sicsú – publicado na Carta Capital
Em 07/03/2012
O PIB de 2011 decepcionou. Contudo, foi o resultado de uma decisão de
governo. No início do ano passado, temendo a inflação e outros gargalos, a
presidenta, junto com assessores mais próximos, tomou a decisão de desacelerar
a economia utilizando políticas monetárias, creditícias e fiscais restritivas.
Ao câmbio valorizado restou o papel de solidificar a situação em curso.
Cabe lembrar que a taxa de juros Selic foi elevada, de 10,5% ao ano para
12,5%, em cinco reuniões do Banco Central (BC), de forma consecutiva, de
janeiro a julho. Ainda assim, o BC sofria ataques de analistas ligados ao sistema
financeiro que o acusaram de frouxidão: desejavam que a taxa de juros fosse
elevada a uma velocidade maior.
O BC adotou, também, medidas macro prudenciais para reduzir o ritmo de
ampliação do crédito. O Tesouro reduziu o valor dos aportes ao BNDES em 2011.
Em fevereiro, o governo anunciou um corte de R$ 50 bilhões em gastos previstos
para o ano. Posteriormente, elevou a meta de superávit primário em R$ 10
bilhões, que saiu de R$ 117,9 bi para R$ 127,9 bi.
O resultado esperado foi alcançado. A economia cresceu 2,7% em 2011. No
ano anterior, havia crescido 7,5%. Este é um resultado medíocre para uma
economia que vinha crescendo a uma taxa média, entre 2007 e 2010, de 4,5% ao
ano. Não é plausível atribuir a chegada do pibinho à crise europeia que
explodiu somente em meados de setembro do ano passado. O cenário brasileiro já
era de frenagem brusca.
Há um temor político no ar: a volta da trajetória de pibinhos dos
governos FHC. Repetir em 2012 o crescimento do PIB de 2011 representará, no
plano econômico, uma descontinuidade política em relação à era Lula. Para
reagir, desde o final de agosto, o Banco Central iniciou um processo de redução
da taxa de juros Selic. O governo adotou medidas de isenções tributárias,
incentivos fiscais e estímulos creditícios. Todas as medidas parecem ser
tímidas e insuficientes para enfrentar os efeitos do cenário internacional e a
paralisia interna, principalmente, na indústria de transformação. A exceção foi
o aumento dado ao salário mínimo – uma medida potente e eficaz.
A presidente estabeleceu uma meta para o volume de investimentos em
relação ao PIB para ser alcançada ao final do seu governo. Objetiva que esta
relação atinja o patamar de 24%. Em oito anos, Lula fez o investimento crescer
de 15,3% para 19,5% do PIB. Dilma já perdeu o primeiro ano, em 2011, tal
relação caiu para 19,3%.
Há uma visão, explicitada de forma tímida, que o governo deve fazer
investimento público e moderar o consumo privado. Essa seria a fórmula para o
crescimento contínuo e não inflacionário. Contudo, tal fórmula colocará o
Brasil de volta na trajetória de pibinhos. A marca do crescimento dos governos
do presidente Lula, principalmente, em seu segundo governo, foi fazer
crescimento com inclusão social. Em termos econômicos, isso representava um
forte estímulo ao consumo, que, por sua vez, estimulava intensamente o
investimento privado – que cresceu bastante nos últimos anos. É a tensão
imposta pelo consumo que estimula o investimento privado.
No segundo mandato do presidente Lula, o investimento crescia, de forma
consistente, a uma taxa que era o dobro (quase o triplo) do crescimento do PIB.
Em 2010, o investimento cresceu mais que 21%. A economia cresceu 7,5%. Em 2011,
o investimento cresceu 4,7%, menos que o dobro do crescimento da economia, que
foi de 2,7%.
O que estimula o investimento privado é a continuidade do consumo das
famílias e a ampliação do investimento público. Houve crescimento moderado do
consumo (4,1%) em 2011. O resultado do crescimento do consumo acumulado em
quatro trimestres foi o pior dos últimos sete anos. Mas, para piorar, houve um
crescimento medíocre da indústria de transformação (que foi de 0,1%) conjugado
com crescimento das importações. Resumo: o crescimento do consumo não provocou,
tal como era desejável, aumento da produção industrial e não estimulou o
investimento privado, mas gerou empregos fora do país através do consumo de
importados. As importações cresceram 9,7% em 2011.
A conclusão é que, para evitar a era dos pibinhos, o governo deve
retomar as políticas de estímulo ao consumo das famílias, aumentar o
investimento público e adotar medidas de proteção à indústria de transformação,
como, por exemplo, medidas para conter a valorização do real. Acima de tudo,
governo deve abandonar a míope visão que enxerga o consumo privado como
combustível da inflação e o investimento público em infra-estrutura como
elemento que deve preceder o investimento privado. Na economia real, são as
tensões, muitas vezes descoordenadas, entre consumo e investimento que provocam
o crescimento com inclusão social, tal como ocorreu na gestão do presidente
Lula.
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