quinta-feira, 12 de abril de 2012

Mercado aquecido ensina o brasileiro a pedir demissão


De 3,2 milhões de desligamentos, 30% foram iniciativa do próprio empregado

Publicado no Jornal OTEMPO em 12/04/2012

por PEDRO GROSSI


Troca consciente. Pedro Lobo pediu demissão para trabalhar onde acredita que terá mais visibilidade


A situação de quase pleno emprego da economia brasileira segue apresentando cenários inéditos. Devido ao aquecimento do mercado de trabalho, o brasileiro perdeu o medo de se arriscar: o índice dos que se demitem dos empregos é recorde. Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), no primeiro bimestre deste ano, 30,5% dos desligamentos ocorreram por decisão do próprio trabalhador.

O índice é quase o dobro do registrado em 2003 (17,7%), ano em que esse dado começou a ser apurado. Em janeiro e fevereiro, foram quase 3,2 milhões de demissões, sendo 969 mil por iniciativa do próprio empregado.

"Historicamente, em qualquer lugar do mundo, sempre que a oferta de empregos está maior do que a demanda por trabalhadores, ocorre esse tipo de situação", explica a consultora de carreira e sócia da Véli, empresa de recursos humanos, Lizete Araújo.

No ano passado, as rescisões trabalhistas decididas pelas empresas corresponderam a 55,7% do total. Esse resultado foi o menor de toda a série histórica. Para o professor de economia da PUC Minas Marcelo Mendonça, o índice de demissões voluntárias poderia ser maior se a legislação trabalhista fosse mais flexível. "Como a rotatividade no mercado de trabalho está muito alta, os empregadores não vão abrir mão de alguns direitos, como o cumprimento do aviso prévio, e isso pode inviabilizar algumas transferências", explica.

Na avaliação do economista, cabe ao mercado se adequar a essa nova realidade. "Se o Brasil mantiver esse cenário de crescimento, teremos de nos acostumar com esse tipo de situação", afirma.

Ainda de acordo com os números levantados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do MTE, o número de admissões superou o de demissões em 269,5 mil nos dois primeiros meses de 2012.

"Esse fenômeno é único na história do Brasil, mas deve passar a fazer parte da nossa rotina", diz o economista Marcelo Mendonça. Ele lembra que, há alguns anos, eram as empresas que faziam exigências para contratar empregados; hoje, as regras do jogo mudaram.

Setores
Crescimento. Segundo especialistas, as áreas de engenharia, tecnologia e prestação de serviços são as mais promissoras em geração de vagas e também as com maior rotatividade de empregados.


CORPORAÇÕES

Desafio é criar ambiente para reter os talentos

O novo desenho do mercado de trabalho tem alterado também a organização interna das empresas. A consultora de carreira Lizete Araújo diz que a grande rotatividade dos trabalhadores deu um peso ainda maior para o setor de recursos humanos.

"As empresas já identificaram a importância de se fazer investimentos na área de recursos humanos, que, cada vez mais, deixa de ser vista como área burocrática para ser um setor estratégico", diz. Segundo ela, o desafio das empresas é oferecer aos profissionais um projeto de carreira, que vá além da simples oferta de melhores salários.

Embora seja sintoma de um crescimento econômico, a grande rotatividade no mercado de trabalho pode trazer riscos tanto para os empregados quanto para o empregadores.

Na avaliação de Lizete, quando o trabalhador opta por mudar frequentemente de emprego apenas pela questão financeira, ele pode comprometer sua carreira, "ao não estabelecer uma base e uma trajetória profissional". Para as empresas, há risco em apostar apenas nos salários para atrair mão de obra. "Sem um projeto consistente, não há fidelização". (PG)



Jovens trocam carreira estável por salários mais elevados

Ainda no sétimo período do curso de ciências contábeis, Ludimila Lima, 23, já está em seu quarto emprego com carteira assinada todos eles na área contábil. Ela conta que sempre trocou de emprego porque recebeu melhores propostas salariais.

A estudante ficou apenas seis meses no seu último emprego e já há dois trabalha na nova casa. "Não me arrependi de nenhuma escolha. Tenho que aproveitar o bom momento e buscar as melhores oportunidades", conta.

O publicitário Pedro Lobo, 24, se formou em 2009 e está em seu segundo emprego de carteira assinada. Ele pediu demissão da agência onde trabalhava até o final do ano passado para integrar a equipe de uma empresa concorrente. "Nessa nova empresa, vou ter mais visibilidade", conta. (PG)

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