9 de maio de 2012 | 15h32
Por José Paulo Kupfer – Estadão.com.br
Este texto foi originalmente
escrito para a edição IPad Noite, do Estadão, nesta terça-feira, antes da
nota oficial da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgar nota oficial
sobre a análise publicada em seu portal, declarando que a dita não representava
a posição da entidade, e antes de novos cortes nos juros, anunciados pelos
presidentes do Itaú e do Bradesco.
* * *
Pode-se imaginar que os bancos estejam testando o
governo ao resistirem a reduzir os seus já famosos spreads – a diferença entre
os custos de captação do dinheiro pelos bancos e o preço que cobram para
emprestá-lo. A escolha do tema da redução dos juros para a análise semanal
publicada no portal da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), nesta
segunda-feira, em que se ressalta que “é possível levar o cavalo até a beira do
rio, mas não obrigá-lo a beber a água”, ajuda a alimentar conclusões desse
tipo.
Afinal, desde o início da queda de braço, os bancos
apenas reduziram – e pouco – as taxas de linhas de crédito mais seguras, como
os consignados. Além disso, têm resistido, na prática, a cumprir a regra da
portabilidade, que garante ao cliente o direito de levar suas dívidas de um
estabelecimento para outro.
Mas não seria correto concluir que a reação dos
bancos obedece somente ao objetivo de enfrentar o governo. Apesar da frase
infeliz inserida na análise veiculada pela Febraban – logo contestada por
porta-vozes do governo, com o argumento de que o cavalo se arriscaria a morrer
de sede –, a avaliação de que não dá para obrigar os bancos a reduzirem suas
margens na marra faz todo sentido.
A análise da Febraban está certa ao mencionar o
paradoxo do momento: a piora da conjuntura econômica global abre espaços para
cortes nas taxas básicas de juros, mas, ao mesmo tempo, passa a impor aos
agentes econômicos maiores doses de cautela. Em tempos incertos, as decisões de
recorrer ao crédito ficam mais seletivas, do mesmo modo que as decisões de
emprestar.
É exatamente esse o quadro atual. E o caso do setor
de veículos ilustra bem a situação. Mesmo com uma garantia relativamente forte,
dada pelo próprio veículo financiado, o crédito para automóveis, diante do
aumento dos índices de inadimplência e das incertezas quanto ao ritmo de
crescimento da economia, tem se encolhido, a ponto de determinar um aumento dos
estoques nas lojas e nas montadoras.
Forçar a concorrência num segmento oligopolizado
exige mais do que palavras duras e cara feia. O governo tem usado os bancos
públicos para emparedar os concorrentes privados, mas a estratégia tem limites.
Além de apresentar o inconveniente de, justamente, reforçar a concentração no
setor – os bancos públicos já respondem por praticamente metade do mercado –, a
redução dos juros e das tarifas no Banco do Banco e na Caixa Econômica Federal
esbarra nas fronteiras da prudência negocial e da necessidade de garantir a
solidez das instituições.
Há, contudo, providências à disposição do governo
para induzir os bancos a reduzirem seus spreads. Se eles reclamam dos impostos
que pagam e dos recolhimentos compulsórios ao Banco Central de parte dos
depósitos que captam do público, por que não negociar a redução de tributos e
compulsórios, à maneira como tem sido feito com os impostos em outros setores,
com aqueles bancos que toparem cortar seus juros efetivos?
Cavalo pode não querer beber água, mas não será
burro de recusá-la se for fresquinha.
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