quinta-feira, 10 de maio de 2012

Cavalos não são burros


9 de maio de 2012 | 15h32

Por José Paulo Kupfer – Estadão.com.br
Este texto foi originalmente escrito para a edição IPad Noite,  do Estadão, nesta terça-feira, antes da nota oficial da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) divulgar nota oficial sobre a análise publicada em seu portal, declarando que a dita não representava a posição da entidade, e antes de novos cortes nos juros, anunciados pelos presidentes do Itaú e do Bradesco.
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Pode-se imaginar que os bancos estejam testando o governo ao resistirem a reduzir os seus já famosos spreads – a diferença entre os custos de captação do dinheiro pelos bancos e o preço que cobram para emprestá-lo. A escolha do tema da redução dos juros para a análise semanal publicada no portal da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), nesta segunda-feira, em que se ressalta que “é possível levar o cavalo até a beira do rio, mas não obrigá-lo a beber a água”, ajuda a alimentar conclusões desse tipo.
Afinal, desde o início da queda de braço, os bancos apenas reduziram – e pouco – as taxas de linhas de crédito mais seguras, como os consignados. Além disso, têm resistido, na prática, a cumprir a regra da portabilidade, que garante ao cliente o direito de levar suas dívidas de um estabelecimento para outro.
Mas não seria correto concluir que a reação dos bancos obedece somente ao objetivo de enfrentar o governo. Apesar da frase infeliz inserida na análise veiculada pela Febraban – logo contestada por porta-vozes do governo, com o argumento de que o cavalo se arriscaria a morrer de sede –, a avaliação de que não dá para obrigar os bancos a reduzirem suas margens na marra faz todo sentido.
A análise da Febraban está certa ao mencionar o paradoxo do momento: a piora da conjuntura econômica global abre espaços para cortes nas taxas básicas de juros, mas, ao mesmo tempo, passa a impor aos agentes econômicos maiores doses de cautela. Em tempos incertos, as decisões de recorrer ao crédito ficam mais seletivas, do mesmo modo que as decisões de emprestar.
É exatamente esse o quadro atual. E o caso do setor de veículos ilustra bem a situação. Mesmo com uma garantia relativamente forte, dada pelo próprio veículo financiado, o crédito para automóveis, diante do aumento dos índices de inadimplência e das incertezas quanto ao ritmo de crescimento da economia, tem se encolhido, a ponto de determinar um aumento dos estoques nas lojas e nas montadoras.
Forçar a concorrência num segmento oligopolizado exige mais do que palavras duras e cara feia. O governo tem usado os bancos públicos para emparedar os concorrentes privados, mas a estratégia tem limites. Além de apresentar o inconveniente de, justamente, reforçar a concentração no setor – os bancos públicos já respondem por praticamente metade do mercado –, a redução dos juros e das tarifas no Banco do Banco e na Caixa Econômica Federal esbarra nas fronteiras da prudência negocial e da necessidade de garantir a solidez das instituições.
Há, contudo, providências à disposição do governo para induzir os bancos a reduzirem seus spreads. Se eles reclamam dos impostos que pagam e dos recolhimentos compulsórios ao Banco Central de parte dos depósitos que captam do público, por que não negociar a redução de tributos e compulsórios, à maneira como tem sido feito com os impostos em outros setores, com aqueles bancos que toparem cortar seus juros efetivos?
Cavalo pode não querer beber água, mas não será burro de recusá-la se for fresquinha.

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